Saber, para bem viver


A ÁGUA E O HOMEM

Andava um certo homem a rasgar a terra, abrindo buracos para depositar lixos diversos (plásticos, óleos, embalagens e restos de pesticidas) a céu aberto, quando de repente começou a chover. Primeiro eram só umas gotas e o Homem, olhando para o céu, reparou que havia por ali uns raios de sol à mistura com arco-íris e continuou a fazer as tarefas que estava a fazer, esquecendo completamente a chuva que foi engrossando e aumentando de intensidade, transformando-se subitamente num autêntico dilúvio.
O Homem, aflito e molhado, desatou a correr à procura de um abrigo que estava ali, próximo de um ribeiro. Furioso com a chuva que o molhou e o impediu de continuar a trabalhar, desatou a rogar pragas e insultos a tudo o que era água e chuva. Entretanto reparou que a lixeira que estava a construir, estava a ser arrastada pela água das chuvas para o ribeiro: -Tanta chuva para quê? Isto está tudo malfeito! Olhem para aquele ribeiro a inundar tudo … ainda há-de ir ter ao rio Tejo que vai alagar as culturas e invadir a casa das pessoas, coitadas! … Esta Natureza está muito mal engendrada! Falava, barafustava, mas nem sequer e pensava no mal que tinha feito.
Subitamente, ouviu uma voz que não conseguia saber de onde vinha e, meio assustado, começou a olhar em volta à procura da origem. Pegou num pau grosso que estava por ali caído e puxando-o ligeiramente atrás gritou:
- Quem está aí que apareça! Eu não tenho medo de nada nem de ninguém!- disse meio a gritar,
 não se sabe se de ameaça ou medo. É então que mesmo à sua frente, no ribeiro onde desaguava a torrente de água da chuva com lixo à mistura, formando uma espécie de afluente, se forma com os salpicos das gotas de água uma figura feminina, com aspeto de água suja, que diz numa voz doce, que contrastava com o rumorejar das águas e a sua aparência:
- Eu sou a Água contra quem te sentes revoltado e medroso! Estás todo molhado, porque não ligaste aos nossos avisos, mas sem a água da chuva, as tuas terras não te serviam para nada e, finalmente, como paga e graças a ti estou com este aspeto oleoso, esverdeado e mal cheiroso…
O Homem, como sempre, reage à bruta e irracionalmente, sobre aquilo que desconhece, não entende ou sente receio e, aí vai disto, manda o pau com toda a força contra a figura que estava à sua frente, gritando, mais por medo do que para assustar:- Some-te alma do outro mundo!
Bom, não aconteceu nada do que fez ou disse, isto é, não fez mal à figura porque o pau acertou, mas, a figura que era de água, ficou na mesma e depois não desapareceu e o pau ficou todo sujo de plástico e daquelas coisas pretas e esverdeadas. A Água em vez de se zangar com o homem pela rudeza e violência, falou-lhe ainda com mais paciência para que se acalmasse e disse:
 - Homem acalma-te e escuta. Por que te revoltas contra a Natureza, quando a maltratas? Por que te revoltas contra algo que já existia antes de ti, foi necessário existir para que pudesses ser, existindo  em ti e sem a qual não era possível a vida na Terra? Além disso, já pensaste que podes vir a beber desta água por ti poluída? A doença que podes apanhar e o dinheiro que vais gastar, tu e a tua família, para te tratares? E o mal que fazes aos outros? Ouvindo isto, o homem pensou: bom, estou num sonho, acalma-te e ouve, não perdes nada com isso nem te acontece nada porque é um sonho….Com este pensamento, respondeu ainda meio a medo: -Desculpe minha senhora ….Foi a surpresa…
- Está bem, eu entendo, mas pensa um pouco na tua atitude… se fores assim, em todas as situações que não compreendes, a violência que espalhas à tua volta? Em vez de te revoltares com aquilo que não entendes, tenta compreender e em vez de te enfureceres, tenta aceitar. Repara no mundo que te rodeia: que seria feito das árvores, das flores, dos produtos agrícolas que cultivas, dos animais que te dão sustento e de ti próprio sem água potável? Sabes que 80% da constituição do teu corpo é água? Que a água potável está a escassear no mundo por diversas razões, como é o caso do aumento populacional e do consumo , da  poluição e contaminação por poluentes e esgotos. Cerca de um terço da população mundial não tem, ou tem difícil acesso à água, quer porque não há ou é muito cara? Sim, a água da natureza, que é de todos, custa muito dinheiro a tratar e quanto mais, tu Homem, te desleixares e a poluíres, mais cara vai ficar para ti e para os teus filhos, para poderes sobreviver…e vais ter que trabalhar mais. Além disso a energia elétrica que tens em casa resulta da transformação em barragens proveniente das nascentes e das chuvas que as enchem. As fábricas não funcionariam com falta de água, nada funcionaria, nada existiria sem a Água. Mais, a garrafinha de Água que trazes para beber, vem da nascente, de lençóis freáticos. E tu como paga, atiras a embalagem para a Natureza, para a contaminares…Esperto!
-Podes perguntar, continuou a Água, porque há estes exageros de chuvas e alteração do clima? Eu respondo-te: é por tua culpa, os lixos e poluição, os efeitos de estufa.
 ...  
É por causa desta tua atitude que muitas crianças morrem no mundo inteiro, quer pela sede, quer pela guerra que os países já fazem entre si pelo acesso à Água. A utilização de produtos venenosos nas culturas e a proliferação de lixo na Natureza, para além de provocarem doenças e mortes, reduzem, por infiltração nos solos e lençóis de água no subsolo e arrasto para os lençóis de superfície, a água potável, provocando aumento quer na água consumível quer nos produtos, empobrecendo os Países e reduzindo a tua qualidade de vida. Não sabias? Pois há uma máxima importante: SABER PARA BEM VIVER…
 -Já agora,concluiu, a tua filha mais pequena comeu fruta com tratamento que lhe puseste e lavou-a na poça que fizeste para o lixo….
 -Já agora, concluiu, a tua filha mais pequena comeu fruta com tratamento que lhe puseste e lavou-a na poça que fizeste para o lixo….
O Homem, ouvindo isto, levantou-se sobressaltado e, esfregando os olhos, sentiu um sol radioso no rosto, exclamando:
 - Que chatice de sonho! Levantou-se, espreguiçou-se e olhando à sua volta reparou nos terrenos encharcados de água e o ribeiro transbordante…. Soltando um grito de alegria, correu em direção a casa…

Fernando Catarino

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